terça-feira, 10 de abril de 2012

O Ancião e o Ovo

Porque, se há prontidão, a contribuição é aceitável de acordo com aquilo que alguém tem, e não de acordo com o que não tem. 2 Coríntios 8:12

Justus Devadas, presidente da instituição adventista de ensino Spicer Memorial College, Índia, contou uma história que, em minha opinião, é repleta de graça.

Há muitos anos, Justus ajudou a fundar várias igrejas em vilarejos ao sul da Índia e, certo dia, decidiu visitá-las. Em uma determinada igreja encontrou apenas um pequeno grupo reunido com o pastor para o culto. Mas, para a surpresa de todos, o ancião não estava presente.

– Ele é tão fiel! – afirmou o pastor. – Nunca falta a nenhuma reunião.

Assim, esperaram e esperaram para começar o serviço de culto. E nada de ancião. Decidiram, então, começar sem ele.

Próximo ao fim da reunião, Devadas viu um senhor de idade entrar na igreja, um homem simples do vilarejo, vestido com trajes modestos.

– Sinto muito pelo atraso – ele disse ao pastor. – Gostaria muito de ter chegado aqui no horário, mas percebi que não tinha dinheiro para dar de oferta. Pensei em apenas uma forma de trazer uma oferta, minha galinha. Fiquei esperando ela botar um ovo. Quis apressá-la, mas ela nem se incomodou!

Com isso, o ancião enfiou a mão no bolso e retirou a oferta – um ovo cuidadosamente embrulhado.

Penso na abundância de coisas que possuo – tudo de que preciso e muito mais – e fico emocionado com a dedicação amorosa desse homem. As pessoas que levam suas ofertas de bom grado ao grande Doador, não para ganhar aprovação, mas com o coração repleto de gratidão – dessas é o reino do Céu.

No Antigo Testamento lemos a respeito de um erro cometido pelo rei Davi. Uma praga sobreveio ao povo. Muitas pessoas morreram desde Dã até Berseba, do norte ao sul. No momento em que o anjo destruidor estava prestes a assolar Jerusalém, o profeta Gade disse ao rei que construísse um altar na eira de Araúna, o jebuseu, local em que o anjo havia parado. Ao se encontrar com Davi, Araúna lhe ofereceu a eira e os bois para o sacrifício sem cobrar nada. Mas Davi respondeu: “Não! Faço questão de pagar o preço justo. Não oferecerei ao Senhor, o meu Deus, holocaustos que não me custem nada” (2Sm 24:24).

O rei e o ancião. Três mil anos entre eles, mas o mesmo espírito.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A Recuperação do presidente

Não insistam em se vigarem, pois isso não compete a vocês. “Minha é a vingança”, diz Deus. “Eu cuidarei disso.” Romanos 12:19, The Message

Todos nós conhecemos a história de como Richard Nixon deixou a presidência dos Estados Unidos, mas quem conhece a história da recuperação de sua imagem?

Aconteceu na época do Natal de 1977. O senador norte-americano Hubert H. Humphrey havia retornado para sua casa em Minneapolis, Minnesota. Sua notável vida política estava quase chegando ao fim. Enfraquecido pelo câncer, Humphrey estava à beira da morte. Na rua atrás de sua casa, um grupo de repórteres já montava guarda para ser os primeiros a relatar sua morte.

Humphrey, o lutador de Minnesota, começou a ligar para os velhos amigos e conhecidos ao redor da nação e do mundo. Aparentemente estava ligando para desejar boas-festas, mas todo mundo sabia que na verdade estava se despedindo.

Ao ligar para o antigo adversário, Richard Nixon, na véspera do Natal, soube que Nixon estava doente, depressivo e solitário. Algo perturbou profundamente Humphrey durante a conversa com Nixon. Na manhã seguinte, ele decidiu ligar novamente para o ex-presidente, o homem que em 1968 havia sido o motivo de sua pior derrota. Ao ligar, Humphrey disse a Nixon que tinha um presente de despedida para ele.

Declarou que sabia que lhe restavam apenas alguns dias de vida e que já tinha feito os acertos para os eventos que seguiriam à sua própria morte: o velório no Capitólio em Washington, o funeral e o enterro em Minnesota. Humphrey convidou Nixon para participar da cerimônia que concluiria o velório em Washington. Disse-lhe que gostaria muito que ele estivesse presente e que ocupasse o lugar de honra digno de um ex-presidente.

Nixon havia deixado a presidência de forma vergonhosa apenas três anos antes e desde então não mais havia voltado para Washington. Sentindo a depressão profunda de Nixon, Humphrey criou espontaneamente uma desculpa a fim de fazer com que seu antigo rival retornasse à capital.

Humphrey faleceu três semanas mais tarde. Durante a conclusão da cerimônia em Washington, a multidão ficou quase sem fôlego ao ver Richard Nixon ser escoltado ao lugar de honra com os outros convidados, próximo ao esquife coberto com a bandeira norte-americana. Ali começou a recuperação da imagem de Nixon. Um presente da graça de um homem à beira da morte.

sábado, 31 de março de 2012

O Presente e a Exigência

Então o senhor chamou o servo e disse: “Servo mau, cancelei toda a sua dívida porque você me implorou. Você não devia ter tido misericórdia do seu conservo como eu tive de você?” Mateus 18:32, 33

Há uma discussão muito antiga entre os cristãos sobre a função divina e a função humana na salvação do homem. Alguns cristãos colocam todo o peso no lado divino, reduzindo a ação humana a nada. No outro extremo, encontra-se a teologia que torna a vontade humana tão forte que por si mesma pode levar a pessoa convertida a obedecer à lei de Deus.

Debates como esse geralmente trazem à tona os escritos do apóstolo Paulo. Paulo ensinou com muita clareza que a salvação ocorre unicamente pela graça por meio da fé (ver Ef 2:9). O julgamento, entretanto, será de acordo com as obras (ver Rm 14:10-12). Como essas ideias aparentemente contraditórias podem estar em harmonia? Para mim, a resposta não se encontra num argumento teológico, mas sim nas parábolas de Jesus. Dentre elas, a parábola do servo impiedoso (Mt 18:21-35) oferece a explicação mais clara de todas.

Lembra-se dessa parábola? Aqui está um homem que deve ao rei uma grande soma de dinheiro – dez mil talentos. Para compreendermos melhor o tamanho da dívida, dez mil é o maior número registrado no livro e um talento é a maior unidade monetária. Hoje poderíamos falar, quem sabe, em 50 milhões ou um bilhão para termos uma ideia. O homem implora para que o rei lhe conceda um prazo para pagar a dívida. Quanto tempo será que ele espera viver? Ele nunca será capaz de pagar. Mas, para sua surpresa, o rei perdoa tudo o que ele deve. Simples assim. “Você está livre. Cancelei a sua dívida”, diz.

Agora, esse mesmo homem que teve uma dívida enorme perdoada se encontra com um conhecido que lhe deve 100 denários (alguns milhares de reais).

O devedor implora para que o homem lhe conceda um prazo a fim de que possa pagar a dívida. O homem, porém, o manda para a prisão. Finalmente, a notícia chega aos ouvidos do rei, que fica muito zangado. Ele manda chamar o homem que tinha recebido o perdão da enorme dívida e lhe diz que, por causa de suas ações, o perdão fora cancelado.

Essa é uma parábola do reino do céu, uma história sobre a graça. Poderíamos resumi-la em duas palavras: presente e exigência. A salvação é um presente, um presente maravilhoso, mas esse presente vem acompanhado de uma exigência. A graça que nos perdoa nos transforma à semelhança de Deus.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Heróis Modernos

Eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra corajosa de seu testemunho. Eles não amaram a si mesmos e se dispuseram a morrer por Cristo. Apocalipse 12:11, The Message

Uma das histórias mais impressionantes de 2006 foi a incrível façanha de Mark Inglis, que escalou o Monte Everest com pernas artificiais. Inglis, instrutor de alpinismo, foi apanhado por uma forte nevasca no Monte Cook na Nova Zelândia em 1982. Forçado a abrigar-se numa caverna de gelo por duas semanas, sofreu frio intenso e ambas as pernas tiveram que ser amputadas logo abaixo do joelho.

Mas Inglis não ficou sentado se lamentando por seu infortúnio. Em vez de sentir pena de si mesmo, voltou a estudar e se tornou bioquímico e pesquisador. Além disso, continuou praticando alpinismo e, em 2002, voltou a subir o Monte Cook com pernas artificiais. Mas foi em maio de 2006 que conquistou o impossível: o topo do Monte Everest!

Admiro Mark Inglis. Ele é um herói moderno. Admiro todos aqueles que superam os infortúnios da vida, que se recusam a desistir, cuja determinação e coragem os mantêm prosseguindo até realizarem aquilo que outros chamam de impossível.

A Bíblia é o livro dos heróis. Os homens e mulheres cuja vida ilumina as páginas desse livro sagrado – Moisés e Davi, Ester e Débora, Pedro e Paulo – fizeram coisas maravilhosas. Eram corajosos tanto em pensamento quanto em ação. Em seu dicionário não existia a palavra “impossível”, pois Deus estava com eles, motivando-os, inspirando-os, concedendo-lhes poder. Eles continuaram até alcançar o topo que Deus havia designado.

Em pé no primeiro lugar da fila, acima de todos os outros, encontra-se o Líder. Jesus é o maior herói da Bíblia. “Por nunca ter perdido de vista para onde estava indo – o final feliz com Deus – Ele pôde suportar tudo ao longo do caminho: a cruz, a vergonha, qualquer coisa” (Hb 12:2, The Message).

Deus está em busca de heróis modernos. Em busca de jovens que, inspirados pelo sonho divino, façam coisas maravilhosas para a glória de Seu nome e para o bem da humanidade. Sim, atos heroicos que superam até mesmo a conquista do Everest.

Muitas pessoas sonham em se tornar heróis. Mas os heróis de Deus não amam a si mesmos; amam a Jesus, o Cordeiro cujo sangue os libertou para uma nova vida e um novo propósito.

quinta-feira, 29 de março de 2012

A Clematite Relutante

Por isso disse ao que cuidava da vinha: “Já faz três anos que venho procurar fruto nesta figueira e não acho. Corte-a! Por que deixá-la inutilizar a terra?” Lucas 13:7

Nunca plantei uma figueira, mas já me senti como o homem mencionado na parábola. Tive problemas com uma clematite que frustrou todas as minhas tentativas em fazê-la florescer. Parecia que sempre me desafiava a tentar uma nova estratégia de “ataque”.

Por muitos anos admirei as clematites no quintal do meu vizinho que ressurgiam a cada primavera e floresciam em abundância embelezando o lugar. Queria um pé de clematite em meu quintal também e tinha até escolhido o local para plantá-la: ao lado da caixa do correio próximo ao meio-fio. Imaginei-a enrolando-se no suporte da caixa do correio e decorando-o com flores roxas e avermelhadas.

Mas havia um problema: o solo ao redor da caixa do correio era duro e rochoso. Certa vez tentei fazer um canteiro de flores ali, mas infelizmente as mudas morreram sob o calor do Sol. Assim, a cada primavera sonhava com uma clematite crescendo ali, mas a cada verão acabava decidindo relizar o sonho no ano seguinte.

Foi então que certa primavera me deparei com mudas de clematites numa loja. Através do plástico transparente na parte dianteira da caixa, pude observar os brotos verdes. Aquelas clematites estavam prontas! Comprei duas mudas, levei-as para casa e comecei a imaginar como plantá‑las da melhor forma.

Algumas semanas se passaram antes que eu pudesse preparar o canteiro para as clematites, mas por fim consegui plantá-las. Esperei, esperei. Finalmente, um broto insistente apareceu, depois outro. Parecia que estavam lutando para sobreviver e cresceram apenas poucos centímetros durante o verão.

No ano seguinte tentei outra vez. Mais uma caixa. Plantei novamente, aguei, fertilizei. O resultado foi pior. Em agosto as mudas atrofiadas estavam secando. Logo morreram.

Na primavera seguinte – surpresa! Mal pude acreditar no que via. As clematites ressurgiram saudáveis e fortes do período de hibernação. Cresceram, enrolaram-se em volta do suporte e floresceram em abundância e beleza.

Estou feliz que, assim como o homem mencionado na parábola, concedi outra chance às clematites. É dessa mesma forma que Deus age conosco.

quarta-feira, 28 de março de 2012

No Limiar da Vida

Quando tentei entender tudo isso, achei muito difícil para mim, até que entrei no santuário de Deus, e então compreendi o destino dos ímpios. Salmo 73:16, 17

Uma das características no livro de Salmos que mais me chamam a atenção é a grande sinceridade com que foram escritos. Ali Davi, Asafe e outros se expressaram a Deus por meio de uma vasta gama de experiências humanas: alegria, deleite, desespero, dor, raiva, frustração. Os salmos são orações escritas originalmente para serem cantadas, mas são mais diretas e confrontantes do que qualquer oração que você venha a ouvir na igreja hoje.

No Salmo 73, encontramos Asafe diante de uma questão muito, muito antiga: Por que as pessoas más parecem dar-se tão bem na vida e as pessoas boas às vezes se dão mal? Essa preocupação é tão moderna quanto o dia que acabou de nascer.

“Quanto a mim, os meus pés quase tropeçaram; por pouco não escorreguei”, confessou Asafe (v. 2). Ele caiu na armadilha da inveja (sempre uma falta autodestrutiva) ao ver a arrogância e a prosperidade dos ímpios. Na visão de Asafe, aqueles que ignoravam a Deus não enfrentavam lutas, eram saudáveis e fortes e levavam a vida sem carregar nenhum fardo. Não tinham limites para o orgulho, a violência, a crueldade, o escárnio e a opressão que marcavam sua vida. Viviam como se Deus não prestasse atenção ou não Se importasse, porque nunca interveio em seus atos de maldade.

Você já se sentiu como Asafe? Já sentiu vontade de perguntar: “Deus, onde estás? Por que não fazes algo para pôr fim à desgraça que os ímpios têm causado ao mundo?”

Asafe concluiu: “Meus esforços de seguir a Deus e viver uma vida de acordo com Sua vontade são inúteis. É melhor desistir, pois são os justos, não os ímpios, que enfrentam dificuldades.”

Ao focarmos os pontos negativos, acabamos caindo em depressão. Foi o que aconteceu com Asafe. Essa era uma questão muito deprimente para ele. Asafe, porém, decidiu caminhar um pouco. Chegou ao santuário – o Templo – e as nuvens se desfizeram. Sua visão estava limitada; o santuário, porém, a ampliou.

“Então compreendi o destino dos ímpios” (Sl 73:17). Os ímpios podem parecer trafegar pela Avenida Fácil, sem nenhuma preocupação no mundo, mas estão na verdade na Rampa Escorregadia. De repente caem para a grande ruína, rumo ao esquecimento. A casa, que parecia tão segura, era feita de cartas. Porém, os justos serão vindicados.

terça-feira, 27 de março de 2012

Cheio de Graça

Deus é bom para todos; tudo o que Ele faz está cheio de graça. Salmo 145:9, The Message

Há várias maneiras de olhar o mundo. Uma delas é encarar tudo o que acontece como sendo o resultado direto de causas naturais. Tudo o que vemos ao redor, tudo o que foi, é e será possui uma explicação lógica que pode ser encontrada se pesquisarmos a fundo o suficiente.

Mais e mais pessoas, especialmente nas sociedades desenvolvidas, têm adotado essa visão. Para elas, Deus morreu no início da era científica moderna com toda a tecnologia que veio em seguida. Estamos sozinhos no vasto e frio Universo; não temos nenhuma esperança de vida depois que nossa breve existência chegar ao fim.

Há vários anos, alguém muito querido para mim faleceu repentinamente. Lutei com a ideia de viajar meio mundo para comparecer ao seu funeral, mas, devido a várias razões, decidi simplesmente enviar uma mensagem para ser lida às pessoas ali reunidas.

Mais tarde, recebi a gravação em áudio do funeral e senti-me muito mal. Durante a cerimônia inteira, nenhuma oração fora proferida, nenhum hino entoado, nenhum verso bíblico lido e nenhuma menção foi feita ao nome de Deus. Liderados por um “elogiador”, os membros da família apenas partilharam recordações do falecido. No fim, o “elogiador” tocou uma das músicas prediletas do finado: “Os Três Tenores”. Que jeito de viver! Que jeito de morrer!

Outras pessoas enxergam o mundo através dos olhos embaçados pela superstição. Atribuem forças para o bem ou mal, poderes invisíveis que podem nos atacar e pôr fim à nossa vida. De acordo com elas, devemos lidar com tais forças com cuidado e segundo um ritual apropriado. Muitos professos cristãos possivelmente possam ser classificados nessa categoria.

A maneira como eu enxergo o mundo é totalmente diferente das apresentadas acima. Trata-se da maneira bíblica, a maneira que afirma que há um Deus, um Deus que Se comunica conosco e que é amor. Esse Ser, que é todo-poderoso, “é bom para todos”. Tudo o que Ele faz – tudo – está cheio de graça.

Não estou sozinho no vasto e frio Universo. Não estou sujeito aos caprichos das forças malignas. Sou filho do Rei do Céu, conhecido e amado pessoalmente por Ele como se fosse a única pessoa no planeta.

Como sei que isso não é uma ilusão? Porque Ele enviou Jesus, e Ele era “cheio de graça” (Jo 1:14).